Há uns tempos atrás o contador marcou as 11111 visitas. É um numero bonito, cheio de simetrias, repetições... é um número de 1's alinhados e graciosos. Mas acima de tudo é um número... grande! Já passaram mais de três anos desde que este blog começou. Na altura escrito de outra maneira, por uma pessoa diferente da que sou hoje. A minha vida virou do avesso e voltou a virar, girou sete vezes e andou em frente, fazendo curvas, parábolas, tracejados... e o blog foi caminhando com ela. Às vezes esquecido, outras vezes bombardeado de coisas já tantas vezes ditas. Quando leio os posts mais antigos vejo quão pacientes e generosas foram as pessoas por, desde então, os lerem e cá voltaram para ver o que havia de novo.
Já pensei em apagá-lo, começar outro, pedir a outras pessoas para o escreverem comigo, dar-lhe outro nome... mas ele sobreviveu a tudo.
Este blog é como um álbum de família... com fotos recentes, e também fotos antigas, nas quais figuramos com roupa ridícula e feições diferentes.
Já foi muito, chegou a ser quase nada. Um prazer, uma obrigação saudável, uma libertação...
A todos os que leram, que comentaram, que me mandaram e-mails, que colocaram links nos seus blogs, aos que entraram aqui por engano e leram o primeiro post até ao fim... O MEU MUITO OBRIGADA!
O meu corpo é o melhor exemplo de inércia que conheço. De férias, grita e contorce-se com vontade de continuar na correria do mês passado. Quando chegar a altura de correr vai cair inanimado no meu beliche e implorar-me que fique, que durma, que não dê mais um passo sob risco de esgotar o resto de energia que a custo conserva.
Hoje é um dia de nostalgia. Um dia de saudade. Saudade dos sítios que não visitei, das pessoas que não conheci, das cartas que não escrevi. Hoje é o dia do que não fiz e do que não sou. Das pessoas em que não me tornei e dos livros que não li. Hoje esqueço que sou feliz, para neste calor que me entorpece recordar o que não fui.
Com o verão voltam as insónias! Quando se passa uma (boa!) parte do dia a dormir e a outra a descansar é difícil voltar a adormecer. As insónias fazem-nos pensar e eu não gosto de pensar antes de dormir. A nossa alma deve pairar descansada enquanto adormecemos, senão perde-se a essência do sono: Paz! As minha insónias são incapacitantes! Apetece-me dormir, mas não consigo, e acabo por não conseguir fazer mais nada.
Como me apetece dormir não consigo começar nada consistente: não consigo ler porque tenho sono e me distraio, não consigo fazer origamis porque não estou suficientemente concentrada... É triste porque gosto muito de dormir!
Às vezes penso que sou uma abandonadora de pessoas! Naquele momento estou, e se estou lá estou mesmo lá, mas depois porque naquele momento eu estive mesmo lá as pessoas pensam que vou estar mesmo lá para sempre! E quando olham desapareci!
Se as pessoas me chamam eu volto, mas como eu sempre vinha sem ser chamada, as pessoas não chamam... e eu desapareço!
Porque vou e volto depressa demais, corro e ando e giro e durmo horas a fio exausta. E quando reparo estou num sítio diferente. Sou inconstante, inconsistente, mal estruturada, feita com cálculos errados, quase inexistente. Agora sou um bocadinho aqui, um bocadinho acolá, agora não sou nada em lado nenhum.
As minhas raízes - essas leva-as o vento, não tenho tronco, cresço e sigo para qualquer lado. Trepo o beiral da casa, subo ao telhado, desço ao pé da janela! Lá trás - já não sou eu!
Agora paro e penso! E sofro, porque não sou ninguém! Alguns vislumbram-me:"tinha cabelo e olhos escuros, parada ao pé da varanda, sorriu-me, depois ficou estranha, parecia estar a pensar em alguma coisa. Quando voltei a olhar já lá não estava!"
Terminada a época de exames, sobram, no meio da minha agenda, pequenos fragmentos do desespero das horas consecutivas e intermináveis de estudo...
Lembrar a mim mesma o porquê de estudar Histologia e cercar-me de boas razões para o fazer:
1. Então... do início: Histologia é uma cadeira. Eu quero fazer as cadeiras todas. Logo eu quero fazer Histologia. Para conseguir fazer Histologia, tenho que estudar. Poderia atrever-me a concluir que, no fundo, quero estudar Histologia - (hum... demasiado rebuscado).
2.Os meus pais ficam felizes se eu fizer as cadeiras todas (aplicar o raciocínio anterior para de novo concluir que tenho/quero (??) estudar histologia.
3. Se chumbar este ano, terei de estudar tudo novamente para o ano. O que leva a que:
a) o que já estudei seja inútil, uma vez que não me vou lembrar de rigorosamente nada do que estou a estudar agora no próximo ano;
b) acabe por estudar no minimo o dobro do que estudaria se fizesse já a cadeira agora (devido a 3.a) ).
c) Terei de ir novamente às aulas práticas.
O que implica:
c1) perda de tempo, que poderia gastar noutras coisas (por exemplo DORMIR);
c2) Infelicidade e depressão (umas vez que as aulas irão continuar a ser... entediantes);
c3) Terei aulas com os caloiros, os quais me adoram, devido à intensa (quiça... traumatizante) actividade praxistica que desenvolvi ao longo do ano - o que agrava o ponto 3.c2).
4. Todos os meus colegas estão a estudar Histologia neste momento.
5. Se não fizer Histologia na época normal arrisco-me a chumbar às cadeiras que vou fazer na época de recurso. Exemplos: Imunologia e Genética.
O que implica:
a) Risco de chumbar de ano - de que resulta marginalização social (ver 3.c3) ).
b) Diminuição de auto-estima → DEPRESSÃO!!
c) Pais pouco satisfeitos.
nota: não esquecer o feedback positivo entre s várias alíneas, de que resulta: Diminuição do estado geral de felicidade.
6. Quanto mais estudar hoje, menos terei que estudar "amanhã" (num cenário ideal em que a matéria algum dia se esgota). Hoje não posso fazer coisas que me deixam feliz, porque estou ocupada com o sentimento de culpa resultado de não estar a estudar. Por outro lado, "amanhã" há um mundo de possibilidades, porque irei sentir-me satisfeita comigo mesma por já ter estudado (ausência de sentimento de culpa → dia com mais potencial).
7. Há uma recompensa! Irei certamente obter resultados mais positivos que no semestre passado. (recordar nota de Histologia I : 9.74 valores).
8. Médio/ Longo prazo:
Terei que fazer eventualmente esta cadeira para passar para o sexto ano, e, depois deste, ser médica. Aplicando um raciocinio lógico e dado que todas as outras cadeiras do curso são mais agradáveis que histologia: faço histologia → sou praticamente médica. Como ser médica é uma possível fonte de satisfação/felicidade → ESTUDAR HISTOLOGIA FARÁ DE MIM UMA PESSOA FELIZ!
Cheguei finalmente a casa.
Depois de uma época de exames que parecia maior que um semestre inteiro, e de umas férias para tentar esquecer essa época de exames, cheguei a casa. Doze horas depois de ter saído de Portimão, lá bem longe, na outra ponta, pouso finalmente as malas. Nunca paro de correr, correr para as aulas, correr para os exames, correr para arranjar lugar na biblioteca, correr para conseguir apanhar o expresso, correr para casa para dormir, correr para chegar ao supermercado antes que feche... Já não sei caminhar devagar...
O quarto vazio transforma-se numa barafunda de sacos abertos, roupa espalhada, livros amontoados, sapatos perdidos do seu par. Com o tempo as coisas encontram o seu lugar, perdem se em armários e estantes, ficam esquecidas nas gavetas. A caneca de leite quente com chocolate está pousada na secretaria. Há coisas que nunca mudam.
O ar está quente, não há vento! Mais uma noite abafada a saber a Verão. Sabe tão bem estar aqui a ouvir o silêncio, a sentir a calma de uma cidade completamente adormecida. Ano e meio depois ainda me faz confusão tanta gente a viver num sitio tão pequenino como Coimbra. Continuo a ser a menina da aldeia, que estava habituda a andar na rua e não ver pessoas, e agora elas estão em todo o lado, a andar em todas as direcções, falam alto, buzinam, ocupam os lugares sentados dos autocarros, empurram-nos quando atravessamos passadeiras, olham para nós sem nos ver, formam filas enormes nas caixas dos supermercados, respiram o nosso ar... Mas agora, no silêncio da noite, sinto-me novamente na aldeia, como nas noites longinquas em que estudava avidamente para os exames nacionais, enquanto todos dormiam, ou nos serões de Verão, acompanhada pela falta de sono, deitada a ver as estrelas. Como passa depressa... a vida, os sonhos, as conquistas, as coisas que nos rodeiam e que inocentemente pensamos que nos definem... sobra-nos tudo o resto: coisas que vamos novamente ganhando pelo caminho sobre outras formas, algumas que nao conheciamos e que agora temos, outras que não estão à nossa volta mas em nós próprios, e a necessidade esmagadora de definir mos o que tudo isso significa para nós.
Sopro o pó devagarinho sobre as caixas de cartas, sobre os livros, sobre os porta retratos, quase tudo ganhou pó, ficou amarelo, perdeu cor. Sinto-me a voltar a casa depois duma grande viagem. Abre-se a janela para voltar a entrar o sol, descobrem-se os móveis e varrem-se as folhas. As casas quando são abandonadas morrem. O que não é transformado fica perdido, preso a um fragmento de tempo dum passado cada vez mais passado.
Sempre tive medo do esquecimento, desconhecendo a sua generosidade. Ele traz-nos a oportunidade de adoçar-mos o passado, pela perda do que foi mau, pelo amenizar da sua intensidade. Vamos esquecendo o que fomos para transformar o que resta no que somos. Muito do que foi sobra agora esquecido no fundo de uma gaveta sob a forma de fotografia, de pulseira, de carta, de estrela. Agora percebo que temos de arrumar as coisas, encaixotá-las, algumas deitá-las fora, para que outras tenham espaço para crescer. Se carregássemos todo o nosso presente para o futuro, este acabaria por ser igual.
Há pó que não há sopro que afaste, ou pano que limpe, que cai com o fluir da vida, como flocos de neve subtis a pintar um quadro de Inverno, que caem devagarinho até formar um manto que tudo oculta.
O que ocupa a nossa vida até fazer parte de nós não ganha pó, nem pode ser encaixotado, está-nos gravado na pele, brilha no fundo dos nossos olhos, está connosco quando caminhamos pelo vazio, acompanha-nos ainda que até ao infinito.
Sempre fui uma pessoa de Inverno, de chuva, de frio, de leite quentinho com chocolate, de Natal e de dias curtos. Mas estas férias tem o doce sabor do descanso, das horas intermináveis de sono tranquilo, sem despertador ruidoso e aparentemente adiantado, da roupa leve, da despreocupação, do cheirinho a protector solar, de serões quentes com gargalhadas simples, de casa...
Enquanto passo a folha do livro, sinto a sua textura agradável, de sonhos e palavras sentidas, de sabedoria esquecida e empoeirada numa estante agora quase inivsivel, que saudade... É fim de tarde, quão doce é um fim de tarde de Verão quando não há um amanhã.
Estive a ler algumas das palavras soltas que deixei aqui... À procura do tempo que passou tão depressa, como água a fugir entre os dedos, desde que fiz os exames nacionais até agora. Já passaram dois anos desde que este blog começou a ser construído, post sobre post. Quando olho para trás vejo um circulo perfeito, mais um padrão matemático, dos que tanto me fascinam...
Hoje encerra-se esse ciclo, para se iniciar outro, que não sei quando se fechará. Encerra-se um ciclo que começou quando consegui um objectivo, válido ou não, nobre ou não, meu! Fecha-se um ciclo de dúvidas, medo, esperança, esforço, impaciência, que continuou suspenso, até descobrir onde me levou.
Todos tem conselhos sábios para nos dar, sobre qual a melhor maneira para alcançarmos os nossos sonhos, sobre quanto vale lutar por eles, mas ninguém nos diz o que fazer quando lá chegámos. Ninguém nos prepara para o que vem a seguir. Somos movidos, às vezes sem saber para onde, por uma força que já não controlámos. O que se faz quando "os nossos sonhos se tornam realidade"? Vivê-los. Assim parece bastante fácil. Mas não é. Sonhamos com um futuro brilhante e perfeito, idealizado, fácil, e é obviamente diferente, é humano, cheio de imperfeições e detalhes mal calculados. Este ciclo termina aqui, porque finalmente descobri onde me levaram dois anos de luta, retratados, eu diria fielmente, neste blog. Fui levada para um sítio que não sabia o que era, mas não seria um sonho se assim não fosse. Adaptei-me, esperei em silêncio pela compreensão de uma porção razoável das coisas que me rodeavam, das pessoas, do que trazem dentro de si, das expectativas que tinham, das desilusões ou surpresas que receberam em troca, e principalmente do que vinha a seguir. Porque a máquina não pára, e há sempre um a seguir, a verdade é que não há um corredor com uma luz no fundo do túnel que quando atingida nos traz o descanso da obtenção dos sonhos, a perfeita serenidade, a felicidade plena. É apenas mais uma porta, para um outro corredor, e a verdade é que é um labirinto sem fim, onde apenas nos é dado a escolher qual a porta que abrimos a seguir. O que queremos, temos que ir conseguindo pelo caminho, sem esquecer que o próximo corredor poderá ser melhor. Não há finais felizes, porque simplesmente não há final, apenas um começar de outra maneira, noutro sitio de um novo capítulo.
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